Guinada social de Bolsonaro tende a desidratar 'memória do lulismo', diz antropóloga

Segundo Rosana Pinheiro-Machado, lançamento do Renda Brasil dá musculatura à reeleição de presidente

Revista Imagem - Publicado em 15/08/2020 08:45


O avanço de Jair Bolsonaro sobre a área social, foco dos governos petistas, com o lançamento de um novo programa de transferência de renda, tende a desidratar ainda mais a "memória do lulismo" entre as camadas mais pobres da população ao mesmo tempo em que dá musculatura à sua reeleição.


Essa é a opinião da antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, professora do Departamento de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Bath, no Reino Unido, e autora do livro Amanhã vai ser maior (Editora Planeta, 192 pp, 2019), em que investiga o período que vai das Jornadas de Junho de 2013 até a vitória de Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2018.


Pinheiro-Machado é um estudiosa do bolsonarismo e vem pesquisando, desde as últimas eleições, como moradores de periferias do Sudeste e Sul do Brasil, antes eleitores do PT, se converteram a apoiadores de Bolsonaro.


Segundo ela, há um tripé que sustenta o bolsonarismo, formado por "punitivismo, família e assistência social".


"O punitivismo se refere à abordagem de Bolsonaro sobre segurança pública. Já a família são os valores e costumes conservadores, que se aliam à base religiosa. Por fim, a assistência social se manifesta nas políticas de transferência de renda", diz ela.


Pinheiro-Machado acrescenta que o último eixo, o da assistência social, que nunca foi o forte do atual governo, ganha força agora, com a concessão do auxílio emergencial e o lançamento do plano Renda Brasil.


"O lulismo já havia perdendo memória nas camadas mais pobres da população e isso deve se acentuar ainda mais agora", assinala ela.


"O dinheiro do auxílio emergencial, por exemplo, já muda a vida de muitas pessoas - e dinheiro significa autonomia", acrescenta.


Ela ressalva, no entanto, que esse fenômeno é regionalizado e não pode ser observado de forma homogênea entre todas as periferias do Brasil. As zonas mais carentes do Nordeste, onde o lulismo é mais forte, precisam ser acompanhadas com mais atenção, acrescenta.


Contexto da pandemia


Anunciado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, em junho, o Renda Brasil é um programa de renda mínima permanente, com a unificação de vários programas sociais, incluindo o Bolsa Família.


De acordo com Guedes, devem ser incluídos no programa os 38 milhões de beneficiários do auxílio emergencial, de três parcelas de R$ 600, pago em razão da pandemia de covid-19.


"Aprendemos durante toda essa crise que havia 38 milhões de brasileiros invisíveis e que também merecem ser incluídos no mercado de trabalho", disse ele na ocasião, durante reunião ministerial coordenada por Bolsonaro.


A mais nova pesquisa do Instituto Datafolha, divulgada na sexta-feira (14/08), sustenta a análise de Pinheiro-Machado. A sondagem mostra que a aprovação a Bolsonaro subiu e é a melhor desde o início do mandato.


Segundo o levantamento, 37% dos brasileiros consideram o governo ótimo ou bom, frente a 32% do anterior, realizado em 23 e 24 de junho.


Houve uma queda ainda maior na rejeição ao governo. Anteriormente, consideravam ruim e péssimo 44% dos entrevistados. Agora, são 34%. Já 27% consideram o governo regular, ante 23% em junho.


Foram entrevistadas 2.065 pessoas por telefone nos dias 11 e 12 de agosto. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais, para mais ou menos.


Mas mesmo no Nordeste, um reduto oposicionista, a rejeição a Bolsonaro caiu de 52% para 35%. Ali, ele tem sua pior avaliação: somente 33% consideram seu governo ótimo e bom, alta de seis pontos em relação a junho.


A correlação com a distribuição do auxílio de R$ 600 é sugerida, ainda que não direta.


No Nordeste, onde vive quase um terço da população brasileira, 45% dos moradores recorreram ao benefício.


Mudança de tom


Pinheiro-Machado também faz coro com outros especialistas de que Bolsonaro "mudou de tom" recentemente.


Desde a prisão de Fabrício Queiroz, ex-assessor de seu filho Flávio Bolsonaro, investigado no caso das "rachadinhas" e elo entre o gabinete do hoje senador e milícias no Rio de Janeiro, o presidente vem diminuindo as aparições públicas e incitando menos os apoiadores radicais.


Além disso, também vem estreitando laços com os partidos do chamado "centrão", distribuindo cargos e verbas em troca de apoio.


Reeleição


Na visão de Pinheiro-Machado, Bolsonaro caminha para fortalecer suas chances de reeleição, ao ter o apoio das massas via programas sociais e das elites, com a agenda liberal de Paulo Guedes.


Porém, o manejo da pandemia de coronavírus pode frustrar seus planos, ressalva.


"Tudo vai depender de como será a gestão da crise daqui para frente. Se continuar morrendo muita gente, aos milhares, isso pode se tornar um calcanhar de Aquiles para Bolsonaro e prejudicar sua reeleição", conclui.

Por Luis Barrucho (BBC)

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