Coronavírus? Por enquanto o problema real em Vilhena é a dengue.

Com quase 1.200 notificações e mais de 800 casos confirmados até este mês, a Dengue já matou duas pessoas em Vilhena neste ano. E os números podem ser ainda maiores devido às subnotifcações.

Por Revista Imagem - 20/05/2020 13h37 - Reportagem José Antonio Sant'Ana

Álcool gel, máscara e isolamento são importantes, mas esqueça de limpar o quintal pra ver o que acontece. Com 19 casos confirmados de Covid-19 até a terça-feira (19), o coronavírus detém a atenção dos noticiários em Vilhena. Porém, o vírus que preocupa e muito – pelo menos por enquanto – é transmitido por um mosquito e não pelo contato físico ou por gotículas de saliva. Estamos falando do vírus da dengue, que em Vilhena já contaminou centenas de pessoas e matou pelo menos duas nos quatro primeiros meses do ano.


Segundo o setor de epidemiologia da Secretaria Municipal de Saúde de Vilhena, cerca de 800 casos de dengue foram confirmados até o dia 9 de maio, e outros 1.170 casos foram notificados. Porém, esse número é bem maior. Os dados da Prefeitura são estimados com base nas pessoas que procuram atendimento na rede pública de saúde, e não incluem os casos que são tratados na rede particular, que são muitos. Tem ainda as pessoas que sequer procuram atendimento médico.


As sub-notificações se tornam um problema porque limitam a atuação eficaz dos órgãos de saúde. Mas nem por isso, a prefeitura local deixou de agir. Tentando frear o crescimento vertiginoso da doença, as Secretarias Municipal e Estadual de Saúde realizaram em abril uma grande operação de combate ao mosquito Aedes aegypti, vetor de transmissão da dengue.


De acordo com o técnico em saúde pública da Prefeitura, Paulo Cremasco, a operação contou com o reforço de dois veículos cedidos pela Agevisa (Agência Estadual de Vigilância em Saúde) equipados com aplicadores de inseticidas. “O fumacê indiscriminado em toda a cidade foi abolido, mas quando surgem focos, a Saúde providencia a aplicação de inseticida de forma controlada nos locais onde há focos confirmados de dengue”, revela.


Através do mapeamento dos casos confirmados, a Secretaria Municipal de Saúde mobilizou o setor de Endemias e os agentes comunitários de saúde para a iniciativa. De acordo com o Levantamento Rápido de Índices para Aedes Aegypti (LIRAa) da Prefeitura, 82% dos criadouros de mosquitos no município estão dentro de quintais de casas habitadas. Em abril existiam cerca de 2 mil casas no município com criadouros de Aedes.


Os bairros com maior número de casos da doença em Vilhena são: Centro, 5º BEC, Cristo Rei, Jardim Eldorado, Vila Operária e Setor 19.


TRANSMISSÃO

A melhor forma de combater o mosquito é a prevenção, eliminando a água armazenada dentro de casa e nos quintais. Ralos, vasos de plantas, galões de água, pneus, garrafas plásticas, piscinas sem uso e sem manutenção e até mesmo recipientes pequenos como tampas de garrafa podem virar criadouros do mosquito. O mosquito da dengue tem uma peculiaridade que se chama “discordância gonotrófica”, que significa que é capaz de picar mais de uma pessoa para um mesmo lote de ovos que produz. Em média o mosquito tem 45 dias de vida, e um único mosquito pode contaminar até 300 pessoas.


Entre os sintomas da dengue, que pode se manifestar em adultos e crianças, estão febre alta acompanhada de dor de cabeça, dor atrás dos olhos, no corpo e mal-estar intenso. O motorista Geraldo Souza já experimentou esses sintomas por duas vezes. Morador de Vilhena, o ele contraiu a doença pela primeira vez em 2014. Em março desse ano foi infectado novamente. “Sentia o corpo ruim, dores musculares intensas, principalmente nas articulações, dores nos fundos dos olhos e um desânimo muito grande, aquela falta de coragem para me movimentar e fazer as coisas corriqueiras”.


SOROTIPOS

Quando alguém é infectado pelo vírus da dengue, o paciente cria imunidade permanente. Na teoria isso quer dizer que você só pode contrair dengue 1 única vez. Mas na prática você pode pegar dengue até quatro vezes. Isso acontece, porque a dengue apresenta quatro tipos diferentes, os chamados sorotipos 1, 2, 3 e 4. Assim, cada pessoa pode contrair a doença até quatro vezes, uma para cada tipo de infecção.


É preciso ter cuidado, pois em alguns casos a dengue pode matar. O médico sanitarista da Fiocruz Claudio Maierovitch explica que o agravamento acontece pelas complicações ou hemorragias que a pessoa desenvolve cada vez que adoece.

“O vírus que causa dengue tem quatro tipos diferentes. Nós chamamos de sorotipos porque o que diferencia um do outro é o tipo de anticorpo que o organismo humano produz para cada um deles, que é diferente. Mas o vírus tem o mesmo comportamento. Como a reação é específica para cada um dos sorotipos, as pessoas podem ter a infecção por um tipo de vírus mesmo já tendo tido por um dos outros. Uma pessoa que já teve dengue uma vez por um sorotipo, quando tem uma segunda vez, tem um risco maior de desenvolver uma forma mais grave da doença.”


O Brasil está em estado de combate ao Aedes aegypti. Além de eliminar os criadouros, as pessoas precisam se informar e entender sobre as doenças transmitidas pelo mosquito. Há uma década, circulam no Brasil quatro tipos de vírus da dengue. A cada epidemia, um desses sorotipos predominam nas regiões brasileiras. Por essa razão, mesmo com surtos recentes de dengue, quando um vírus é reintroduzido no país, uma grande parcela da população fica suscetível.


Claudio Maierovitch destaca que os sorotipos são os mesmos desde que foram estudados há muitos anos. Não há uma mutação no comportamento do vírus. O que acontece é que nem sempre os sorotipos estão circulando simultaneamente. Geralmente, temos um ou dois ao mesmo tempo e um deles costuma predominar.


"Neste ano, nós tivemos uma predominância do chamado sorotipo 2. Ele ficou cerca de 8 anos sem causar infecção com números significativos, e até por isso, como ficou longe do Brasil por alguns anos, acumularam muitas pessoas sem imunidade para esse vírus”.


É exatamente o sorotipo 2 que preocupa as autoridades. Sem se concentrar em um único estado, esse vírus específico se expandiu por conta das condições climáticas favoráveis para a proliferação do mosquito Aedes aegypti, como o forte calor e as chuvas. Ou seja, em tempos de coronavírus não podemos esquecer do vírus da dengue, pois para esse vírus distanciamento social e álcool gel não resolvem nada.


Reportagem publicada na edição 166 da Revista Imagem. Atualizada em 20/05/2020 para o site.

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